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Pavor (2)

por MC, em 11.11.16

Uma querida leitora, sabendo desta minha cisma com águas profundas, teve a infinita bondade de me enviar esta foto. Malandrona. Nem sei o que dizer. Credo. M-E-D-O.

Faz-me lembrar aquela vez (a única) há muitos anos, em que considerei (estupidamente) que talvez não fosse uma ideia assim tããooo má ir visitar o Oceanário. A coisa até nem começou a correr mal de todo, mas sucede que depois desci e fiquei petrificada na frente do tanque central, não sei exactamente por quanto tempo, porque estava muito ocupada a tentar respirar de maneira mais ou menos regular e simultaneamente a controlar o impulso avassalador de fazer xixi pelas pernas abaixo. Nem me recordo muito bem como acabei por sair de lá. Foi qualquer coisa a ver com miúdos a passarem por mim a correr e atascarem-me uma valente traulitada. Abençoada. Quando não, ainda hoje lá estava. 

 

don't turn.jpg

 

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publicado às 22:31

Ó professora, por favor!

por MC, em 06.11.16

O dia começou há muito e parece não querer acabar. A alvorada pouco depois das sete, o acordar estremunhado e choroso, a relutância em largar a cama quentinha e o pijama de ursinhos amarelos. A rabugice a vestir, o pequeno-almoço mastigado a custo, o mano crescido a implicar logo pela fresca. A mãe, na pressa atabalhoada dos preparativos do dia, reclama razoabilidade e juízo; o pai procura eternamente as chaves do carro, a mala do portátil e o telemóvel; depois quer saber quem foi que lhe escondeu os óculos - os mesmos que equilibra artisticamente no cabelo revolto.

A primeira paragem é no emprego da mãe, alguns minutos antes das oito; depois sai o irmão, à porta da secundária às oito e vinte. Fica só ela no banco de trás, quentinho e confortável, a dormitar mais um bocadinho e a ouvir em surdina a rádio que o papá escolheu. À porta da escola desliza contrariada para o empedrado do passeio e lança um último olhar amoroso e envergonhado para o elefante de peluche semi-escondido entre os bancos, que ama desmesuradamente e sem o qual não sabe viver.

Logo de manhã há fichas de leitura e exercícios de vocabulário. A professora corrige os trabalhos de casa, faz perguntas sobre o texto, fiscaliza o aprumo da caligrafia, o asseio dos cadernos, a organização da secretária. O intervalo corre num rápido: o lanche é engolido de afogadilho, que cada momento é precioso. Há correrias, risos e zangas, salta-se ao elástico, sonha-se com os baloiços – só há dois, mais um escorrega e uma roda, para cerca de quinhentos meninos: está bem de ver que os mais pequenos nunca têm vez.

Depois há fichas de Estudo do Meio e a seguir aula de Música. Por volta do meio-dia, os meninos seguem em carreirinha ordenada e solene pela rua acima, para almoçar na escola ‘dos grandes’. O refeitório é imenso e ensurdecedor, a balbúrdia das vozes desregradas e das loiças a tinir nos tabuleiros agita e destempera os pequenitos. Regressam à sala de aula frenéticos e transpirados, as faces vermelhas e as roupas sujas.

Já o sol de outono está a poisar de mansinho nas copas das árvores e  agora é a vez do Manel no quadro. A conta arrasta-se ardósia fora, os números tortos e desalinhados como molas soltas. “Muito bem, Manel, vai lá sentar-te. Maria Inês, anda cá tu agora”, diz a professora, enquanto apaga os algarismos para escrever outro exercício. “Então, Maria Inês?”, torna ela, e procura com o olhar a razão da demora. A Maria Inês está debruçada sobre a mesa, a cabeça encostada à mochila aninhada entre os seus braços. “Não vou”, murmura como quem mastiga as palavras. “O que disseste?”, questiona a professora. E ela repete, agora num grito de revolta, com o fervor de quem atira balas: “não vou ao quadro! Não quero ir ao quadro, já disse!”

“Ó Maria Inês, que conversa é essa?” impacienta-se a professora. A criança continua imóvel, deitada sobre os braços. A agitação dos garotos dá agora lugar a um silêncio expectante. Todos os olhos estão postos nas duas protagonistas do episódio. A professora respira fundo, numa tentativa esforçada de camuflar o cansaço com uma serenidade que não sente. Caminha em direcção à mesa da gaiata, disposta a legitimar a sua autoridade com firmeza.

Mas ainda não chegou ao seu destino e já a Maria Inês se ergue e clama, olhos vermelhos e lacrimejantes, a franja empapada de transpiração, a angústia evidente a bailar-lhe na voz pequenina: “ó professora, por favor, não me obrigues a ir ao quadro! Estou tããõoo cansada! Não quero fazer mais nada hoje! Deixa-me lá estar aqui um bocadinho sossegada!”

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publicado às 17:59

Pavor

por MC, em 20.10.16

Num determinado evento cá da minha vida profissional, um palestrante propôs aos presentes uma actividade de abordagem ao estudo de um certo tema, a qual tinha como ponto de partida a verbalização imediata das sensações / emoções /ideias sentidas por cada um, perante um elenco de fotos que iam sendo apresentadas. Se me apetece falar nisto agora não é pela excentricidade da proposta - não foi sequer a primeira vez que a vi posta em prática na análise de temáticas na área da psicologia - mas sobretudo pela previsibilidade da conclusão a que acabo sempre por chegar: sou uma criatura com problemas.

Onde a maioria das pessoas acha coisas 'assim', eu invariavelmente acho coisas 'assado'. Mas não é um 'assado' em condições, apetitoso e estaladiço, do tipo que automaticamente nos unta daquela película de singularidade gostosa com que não nos importamos de ser temperados. Não. É um 'assado' chocho e desconcertante, que rapidamente resguardo na escuridão do forno, para evitar embaraços. Senão, vejamos estes exemplos: 

 

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Onde todos os olhares extasiados vêem paz, serenidade, liberdade, leveza, alegria e comunhão com a natureza, eu sinto ansiedade, angústia, opressão. Medo. 

 

E aqui: grandiosidade? Exaltação? Aventura? Silêncio? 

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Não. Sudação. Tremores. Pavor. Nheeeeeee. 

 

 

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publicado às 23:41

Acorda contrariada e aturdida. O olhar desorientado percorre a sala escurecida, ainda mergulhada no breu da noite. Os pés gelados pousam no encosto de um sofá, nas suas costas sente um calorzinho bom e aconchegante. A fonte de calor é macia e mexe-se suavemente encostada a si. Pelo vidro da janela, logo acima da sua cabeça, escorre a luz cálida do candeeiro da rua, numa perspectiva que não lhe é familiar.

Demora alguns instantes a compreender onde se encontra: na casa pequenina da avó Joana. Outra vez. Fugiram a meio da noite, esbaforidas e amedrontadas, pela rua fora, com os mais pequenos de braçado, em passo apressado, a respiração ofegante do cansaço e do medo, como malfeitoras a monte. Outra vez.

Da cozinha volteiam as palavras abafadas mas veementes da avó, o choro empastelado e fanhoso da mãe, o tilintar metálico de uma colher a bater distraidamente na chávena de chá. Mexe-se devagar para ver as horas no telemóvel e a irmã pequenita aconchega-se mais a ela, no remanso do sono. Levanta-se com delicadeza e veste em silêncio as roupas do dia anterior, penduradas nas costas de uma cadeira.

Pela porta entreaberta, observa em segredo as mulheres na cozinha. A mãe, sentada à mesa, embala o irmão bebé, que dorme um sono agitado, entrecortado de soluços. Chora baixinho e vai debitando queixumes ininteligíveis, numa articulação tolhida pela turgência ensanguentada dos lábios e pelo inchaço do nariz. A avó ralha, de pé, encostada ao fogão, a mão furiosa a rodopiar a colher no chá fumegante. “Isto não é vida, minha filha, estou fartinha do to dizer”.

A rapariga encosta-se à parede, escondida na obscuridade da madrugada. Percorre a sala com o olhar, tentando vislumbrar a mochila e – já agora – uma saída para o novelo emaranhado que é a sua vida. Gostaria de comer uma torrada, derreter o gelo dos pés com uma chávena de chá quentinho, mas não tem coragem de entrar na cozinha. Não lhe apetece enfrentar agora o rosto novamente desfigurado da mãe, não quer sentir o olhar piedoso e triste da avó.

Fecha a porta devagarinho e sai para o ar frio e cinzento da madrugada. Caminha alguns metros na direcção da paragem e estanca quando se lembra que não tem dinheiro para o autocarro. Também não tem senhas, nem o cartão da escola para almoçar, nem os livros para as aulas do dia. Todas as coisas de que precisa estão na sua casa, esquecidas na ânsia de escapar à sanha animalesca do pai. Voltar atrás não é uma opção, decide, enquanto corre o fecho do casaco até ao queixo e apressa o passo, que o caminho é longo.

Chega à escola esbaforida e encharcada pela chuva que teimou em cair, logo naquela manhã, a inaugurar o Outono. A aula já começou há muito. O professor suspende as palavras quando ela entra e todos os olhares voam para a sua figura esgazeada e patética. “Outra vez atrasada, não é verdade?”, reclama o professor. Oferece-lhe um “desculpe” sumido e distraído de quem tem mais em que pensar.

“Isto assim não pode continuar”, torna o professor. “já tens várias faltas de atraso e de material, não é verdade? E agora, pelos vistos, vais ter mais! Onde está o teu livro? Fizeste os trabalhos de casa? Anda, tira os materiais e começa a trabalhar!” A rapariga cerra os dentes com força para não deixar passar a zanga. As narinas dilatam no esforço de tentar controlar a respiração. “Olha-me este agora!”, remorde entre dentes. O professor não entendeu, mas os colegas das mesas mais próximas ouviram o seu comentário e olham-na, num misto de expectativa e reprovação. “O que foi que disseste?”, interroga o professor. “Responde-me”, insiste, perante o silêncio dela. “E olha para mim, que estou a falar contigo! Estás a ouvir? Onde está o teu livro? E o caderno? Não trazes nenhum material?”

A cada nova interpelação do professor, a raiva e a frustração atravancam-lhe a garganta como uma represa prestes a rebentar. “Ó pá, não me chateie!” dispara, com a fúria irracional de um animal acossado. O professor revida, arreliado e sentido: “Mas isso são modos? É essa a educação que a tua família te dá?”

A menção da palavra ‘família’ é um fósforo aceso no cenário de guerrilha que foi a sua noite, no carrocel desgovernado das suas emoções. “Não lhe admito que fale da minha família!”, grita-lhe com o fôlego que ainda lhe sobra. Levanta-se resoluta e ofendida e caminha para a saída como rainha no exílio. “Bardamerda”, foi a última coisa que disse, antes de bater com a porta com quanta força tinha.

 

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publicado às 19:43

A filha

por MC, em 22.09.16

Tenho uma filha pequenina, matreira e travessa como todas as outras. A minha filha é franzina e frágil, tem o rosto sulcado dos trilhos do tempo e os olhos pequeninos e fundos lançam fulgores de alegria ou contrariedade, na ligeireza em que se gasta um fósforo. A minha menina tem a pele toda enrugada, como se os anos a tivessem amarrotado, ao pousar nela, maciços e descuidados, o seu peso inexorável.

Enche-me de cuidados, esta minha filha. Às vezes, acredito que está sossegada na madorna quente do sofá e quando vou por ela, valhamedeus, não se acha em lado nenhum, o coração dispara-me como uma fisga. Procuro, espavorida, que é dela, que é dela, alvoroço a casa, incomodo a vizinhança, um desassossego. Às vezes, vejo-a por fim assomar ao fundo da rua, confiante e feliz, com um qualquer braçado de flores ou uma mão cheia de amoras. Amua, desconcertada, se lhe ralho por ter saído sem avisar. “Era o que faltava”, resmunga baixinho, com os lábio hirto quase a chegar ao nariz, “a pessoa agora não poder fazer a sua vida… era o que faltava…”, lá vai desfiando queixumes, até se esquecer da birra.

De vez em quando, vou dar com ela parada junto à sebe da escola, a cismar nas brincadeiras dos meninos. Outras vezes, encontro-a sentada num banco do parque, a discursar, desenvolta, para uma qualquer plateia que só ela vê. É sempre surpreendente, a imaginação da meninice. Ocasionalmente, nestes seus giros a despropósito, cai e magoa-se. Encontro-a choramingona, de joelhos esfolados e ombros a tremer. É escusada a zanga, em alturas assim. É dia de mansa repreensão, enquanto se desinfecta o dói-dói.

É caprichosa, esta minha filha. É costume agora torcer o nariz à alface, aos agriões, aos espinafres e aos brócolos. Que não, que lhe fazem mal, dão dores de barriga. Cai-lhe uma tristeza fiteira no olhar, os ombros descaem, os suspiros brotam como lágrimas. Ai, que já nada lhe sabe bem, queixa-se a minha filhinha. Dou com ela a horas impróprias, sentada na cozinha, a comer doçuras. Amiúde encontro a lata dos biscoitos estrategicamente entrincheirada entre as almofadas do sofá e sei, de fonte segura, que o pacote das gomas desaparecido há dias repousa agora, esventrado, na gaveta das meias de uma determinada pessoa.

Às vezes canta, a minha menina. Começa num cantarolar baixinho e frágil como ela própria. Depois, a voz enche-se-lhe de uma força que já teve e materializa-se nela a mulher que foi. E canta com viço e destemor, com o mesmo ímpeto com que outrora lidou de sol a sol, ergueu e escorou uma casa e uma família. Nessas alturas, dá gosto ouvi-la, a minha filha velhinha. Esses são os dias felizes. 

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publicado às 23:22

Velhice

por MC, em 18.05.16

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A velhice é má. Não interessa quão bonitas são as florzinhas nos graciosos vestidos lilases das velhinhas dos anúncios das fraldas descartáveis, a velhice é má. Não importa quão viçosa é a relva dos jardins onde passeiam, airosos, os velhinhos que tomam as gotas da artrite, a velhice é do piorio. A velhice cheira a ranço, a marasmo e a urina. A velhice esvazia-nos os heróis, quebra-os, esboroa-lhes maldosamente os alicerces e larga-os à deriva numa barcaça desnorteada. Quedam-se por aí, murchos e enrugados como balões em fim de festa, a embater de manso pelas paredes. Não sabemos verdadeiramente sobre impotência e frustração senão quando nos envelhecem os amores.

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publicado às 23:26

Pobreza(s)

por MC, em 26.11.15

Só agora, com o bater da hora de almoço, o sol consegue atenuar a brisa fria na rua. As pessoas caminham apressadas, a cabeça anichada nos ombros levantados. Do snack-bar espraia-se um delicioso cheiro, mesclado de limão e canela, que os transeuntes habituais reconhecem de imediato: é quarta-feira, dia do impreterível e celestial arroz-doce da D. Filomena. O aroma, enleado nas notas fortes do café acabado de moer, aquece o ar das redondezas e as entranhas de quem passa.

A D. Filomena, no seu papel de empedernida instigadora do pecado da gula, dispunha, em lugar estratégico no topo do balcão, o tabuleiro com as tacinhas ainda fumegantes, quando vozes alvoroçadas no exterior cativaram a sua atenção. “Ai coitadinha! Então, menina? É melhor chamar a ambulância!”, ouviu quando se abeirou da porta. Mesmo em frente, no passeio junto à paragem do autocarro, as pessoas amontoavam-se numa roda imperfeita mas compacta, as cabeças inclinadas num esforço de observação. Algures dentro do círculo, uma voz fraquinha miava: “não é preciso, já estou melhor, já passou…”

Quando o ajuntamento afrouxou, a D. Filomena viu, encostada ao vidro da paragem, uma miúda magricela e pálida, de lábios roxos. Não lhe era estranha aquela cara, já a tinha visto mais vezes: era uma rapariga lá de cima, do “bairro” - singela referência vulgarmente utilizada pela vizinhança para designar o amontoado sombrio e deslavado de prédios de habitação social construído nos fundilhos da freguesia há mais de duas dezenas de anos. Via-a amiúde por ali, deambulando com os seus: vieram-lhe à memória os modos desordeiros, o palavreado obsceno, o destempero dos gestos, as provocações à vizinhança, as recorrentes arruaças sem causa.

“Então o que se passa com a rapariga?”. Inquiriu. “Desfaleceu, coitadinha”, explicou uma das espectadoras; “estava aqui tão bem e tombou que nem um pardal”, ajudou o Sr. Zé do quiosque. “Pronto, pronto”, sossegou-a a D. Filomena, enquanto a amparava com os braços generosos de avó. E agarrou-lhe nas mãos geladas, depositando nelas pequenas palmadinhas terapêuticas, ao mesmo tempo que lhe espevitava o ânimo com palavras de encorajamento: “anda lá, rapariga, vá, anda comigo, entra aqui, ora senta-te lá um bocadinho, a ver se isso passa.”

“Já estou melhor”, declarou a rapariga e sorriu combalida, bebericando pequenos golinhos de água. “Então que se passa contigo? Estás doente?”, indagou a D. Filomena. A moça abanou a cabeça negativamente, os olhos baixos. “Não estás, mas vais estar não tarda! Onde já se viu, andar assim vestida com este frio? Não tens juízo, rapariga?”, ralhou, apontando para a fina camisola de malha que deixava a descoberto a pele arrepiada da barriga, até ao início da exígua mini-saia xadrez. “Isso é roupa que se vista com este tempo, andas aí com a posta do meio toda à mostra?”

“Olha lá, isso não será fraqueza? Já tomaste o pequeno-almoço?”, questionou a D. Filomena. A rapariga corou, fez que não, os olhos sempre baixos. “Ai não? Então também tens a mania das dietas?”, rosnou-lhe. “Não… é que a minha mãe está outra vez de baixa… e o meu padrasto ainda não arranjou nada… o subsídio só deve chegar hoje… e então…”, sussurrou, como quem empurra as informações aos solavancos.

A D. Filomena respirou fundo, num esforço inglório de fingir leveza, e aligeirou o tom: “pronto, deixa lá, é só um mau momento, não é? Vais ver que não tarda as coisas melhoram! Vou trazer-te um copinho de leite e uma sandes, está bem?” E ali ficou a vê-la comer o pão em pequenas dentadinhas graciosas, com o decoro e a dignidade de uma pequena aristocrata na penúria.

Um sonzinho amaricado rasgou o silêncio de ambas. A garota levou rapidamente a mão ao bolso traseiro da saia e de lá retirou, como num passe de mágica, um rectângulo rosa cheio de brilhos. Os seus lábios abriram-se num sorriso ainda mais luminoso e exclamou: “já está! Já está! A minha mãe já me carregou o telemóvel!”, a alegria em estado puro a bailar-lhe nos olhos.

O espanto gorgolejou na garganta da D. Filomena. A vontade de esbracejar e barafustar embuchava-lhe o estômago, incómoda como água suja num cano entupido. Cerrou os dentes para não ralhar, observando, num silêncio forçado, os dedos finos e céleres da garota a dedilhar no écran, as agruras da míngua já esquecidas. Um suspiro fundo e sentido escapou-se-lhe do peito. Lançou um último olhar desalentado, antes de se levantar para ir compor as mesas para o almoço e questionou-se se não seria esta uma das mais terríveis formas de pobreza.

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publicado às 21:16

Mudar (2)

por MC, em 24.10.15

E foi naquele preciso momento que a vergonha acomodada que habitava dentro de si começou a ser aniquilada por uma raiva surda, uma cólera impante e descontrolada que lhe gorgolejava na garganta e a fez gritar um NÃO irremissível (mas imaginário e silencioso, que tinha tido muito trabalho a adormecer o petiz). Nunca mais, pensou, se deixaria apanhar neste escrutínio aviltante, para sempre declinou esta humilhação consentida. E logo um ímpeto reformista a inundou, como a luz regeneradora de uma aparição litúrgica.

Arregaçou as mangas com tenacidade e olhou em volta, à procura de instrumentos para a renovação. Chegou-se à caixa de cartão onde o bebé dormia e com cuidado cortou uma das abas que pendia inutilmente para fora. Procurou um marcador e rabiscou no cartão algumas palavras. Marchou decidida para fora de casa, completou a tarefa e parou de novo, a mirar a obra. Escreveu mais algumas palavras e sorriu satisfeita. Voltou a fechar a porta da rua e suspirou de contentamento. Lá fora, no cartaz improvisado, preso às estrias de alumínio da porta, numa caligrafia infantil e desarticulada, podia ler-se: “Não recebemos assistentes sociais”. Mais abaixo, numa letra mais pequenina e encavalitada, como que para aproveitar o resto do espaço, dizia: “vendedores também não”.

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publicado às 12:51

Mudar (1)

por MC, em 22.10.15

A senhora calcou devagarinho o chão da entrada como quem pisa território inóspito. Mesmo assim, sentiu sob o salto do sapato o estalar do plástico e arredou-se, atrapalhada, puxando todo o seu peso para a planta do pé. Apanhou do chão um pedaço estilhaçado do que lhe pareceu uma perna de boneca. Brinquedos, peças de roupa e calçado e folhetos de hipermercado pejavam o chão do pequeno átrio e coabitavam num puzzle vanguardista com cascas de clementina, um pedaço trincado de pão e dois pacotes de bolachas vazios.

“Não faz mal, não se preocupe”, murmurou a outra, abrindo com o chinelo um pequeno carreiro de passagem sinuosa. Na cozinha, a senhora olhou em volta num movimento hirto de quem não quer bulir numa palha e não conseguiu esconder um trejeito de nojo. “Ó Cátia” exclamou, “pelo amor da santa!” A Cátia encolheu-se, agastada e moída. “Ó doutora, não tenho tido tempo estes dias… os miúdos doentes, a mais velha de muletas…” A doutora susteve-a com o gesto da mão. “Outra vez desculpas, não vale a pena. Todas as vezes que cá vimos lhe dizemos o mesmo, não é, Cátia? Acha que há condições para as crianças viverem aqui? Olhe bem para isto e seja sincera”, rematou, apontando com vaga agonia na direcção do fogão. A bancada assemelhava-se ao chão do mercado depois da venda, com pilhas de loiça suja, embalagens vazias e sobras de coisas indefinidas. No fogão, restos derramados de comida em diversas fases de secagem combinavam com a pelicula untuosa que escorria nos azulejos.  

A Cátia olhava, também ela desgostosa e aflita, o nervoso a roer-lhe o verniz lascado das unhas rentes, os olhos constantemente a escapulir-lhe para a porta. A doutora encolheu os ombros e abanou a cabeça de forma quase imperceptível, como se pretendesse a todo o custo evitar a propagação aérea de um vírus letal. “E agora o que vou eu escrever no relatório para o senhor doutor juiz, Cátia?”, perguntou incomodada. “Olhe, já nem vou ver mais nada, para não piorar a sua situação”, concluiu e iniciou o percurso de retorno.

Encostou-se à porta quando ela saiu e olhou à sua volta com o descaso crónico e dormente que habitualmente lhe toldava a realidade como um filtro. Atentou na profusão de coisas pelo chão, na cozinha caótica e imunda. Um embaraço inesperado e involuntário apressou-a para o quarto, mas também ali não encontrou lugar para o alívio. No espaço exíguo entre a cama de casal e a parede perfilavam-se duas pequenas camas de criança onde coabitavam lençóis revoltos e peluches desmembrados e encardidos. Ao canto, junto da pequena cómoda, numa caixa de cartão forrada com cobertores, um bebé de meses dormia o sono dos justos. Tentou ajustar o olhar à penumbra e mirou-se no espelho fosco. Viu uma mulher jovem de cabelo untuoso e escorrido, a cara ainda ligeiramente inchada do maldoso abcesso que a martirizava há semanas, a blusa verde salpicada de nódoas de papa já secas. Entalada no cós das leggings de padrão leopardo, uma fralda de pano tresandava a leite azedo. 

 

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publicado às 16:46

Anita no Jardim

por MC, em 24.09.15

O Verão tardio afogueia ainda o pôr-do-sol. O pátio do jardim já se calou de risos e brincadeiras. Os baloiços quedam-se no merecido descanso, prontos para folgar no manso da noite. Lá dentro, as salas e corredores repousam na penumbra, um cheirinho bom a asseio solta-se do chão ainda molhado.

Junto à portaria, duas mãozinhas de dedos gordinhos enrodilham-se na rede, formando pequenas flores assimétricas de minúsculas unhas pintadas de cor-de-rosa. Um vestidito amarelo, estampado com diminutas gaiolas multicores, esvoaça na brisa e exibe, despreocupado, os vincos e máculas de um dia no jardim-de-infância. Na fronte transpirada, misturam-se as farripas húmidas da franja com os sulcos vincados dos arames, no esforço de vislumbrar para além da rede.

“Ó Cilinha, vês alguma coisa, vês?”, pergunta mais uma vez. Que não, responde-lhe a Cila. Que há que ter paciência, torna-lhe, com um sorriso encorajador. “Mas é muito tarde, pois é? Vai ser noite, não vai? E nós vamos ficar aqui as duas sozinhas e eu tenho medo!” As sobrancelhas ralinhas formam um arco de genuína preocupação. “Calma, querida. A mamã já vem. Está quase, quase a chegar.” “Está quase a chegar”, murmura a Cila mais para si própria do que para a petiza, numa tentativa infrutífera de persuasão conjunta.

O sol está prestes a pôr-se no fundo da rua tranquila. Os espaços de estacionamento estão quase todos desocupados. Os passeios vazios ladeiam a rua larga, já preparada para o sossego desabitado da noite. Os olhos da Cila cravam-se na curva ao fundo da estrada, enquanto mentalmente desfia o ror de coisas que ainda tem de fazer, as desoras que são, a sua sina de corrupiar. A menina choraminga. A mulher faz-lhe uma festa no cabelo. “Olha, Ana, vem lá a mamã!”

A Ana enxuga as lágrimas com as costas da mão, limpa de caminho o nariz, saltita para tentar ver. Já o automóvel sobe a rua, garboso e luzidio, e estaciona desafogado na frente do recinto. A mamã da Ana desce do veículo apressada e sorridente. Na atrapalhação da correria, cai-lhe ao chão a sacola, dispara o frasco de protector solar, os óculos de sol aterram –afortunadamente- em cima da toalha de franjinhas, a revista esventra-se no pavimento.

A Ana estanca, fraccionada pela alegria de ver a mãe e a necessidade de apreender o insólito da situação, o semblante fechado da Cilinha. “Desculpe, D. Cila”, diz a mamã, ao mesmo tempo que atabalhoadamente apanha do chão a parafernália, “atrasei-me um bocadinho…” A D. Cila, aperreada pela vontade (não concretizável) de lhe dizer duas ou três coisas, arremessou: “um bocadinho é como quem diz, não é? É que o Jardim já fechou há quase duas horas, sabe? E só cá fiquei eu com a menina!” Ainda adiantou “E já não é a primeira vez que…”, mas a voz morreu-lhe na distracção de observar as revoadinhas de areia a soltarem-se das sacudidelas da toalha.

Resignada, voltou as costas para fechar o portão. Ainda ouviu a vozinha magoada da menina “Ó mamã, foste à praia? E não me levaste?” e sentiu a sua indignação a afundar-se numa vaga imensa de compaixão e tristeza.

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publicado às 14:19


Este estendal é meramente um exercício de egocentrismo. É a roupa que eu estendo, quando calha.

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